Elephant (2003)

14/07/2025

Elephant é um filme inspirado no massacre de Columbine (1999) e mostra de forma íntima apenas um dia comum em uma escola estadunidense, ou pelo menos o que deveria ser só mais um dia comum como qualquer outro dia.

Info: O massacre de Columbine que aconteceu em abril de 1999 foi um ataque armado à Columbine High School feito por dois alunos da escola, o Eric de 18 anos e o Dylan de 17 anos. Foi um ataque bem planejado, com o uso de vários explosivos caseiros e armas. Com 13 mortos e mais de 20 feridos, o plano era causar bem mais mortes, porém os explosivos não funcionaram como planejado (ainda bem). Ambos os jovens se suicidaram na escola após finalizar seu ataque.

O filme nos leva a transitar entre os corredores da escola observando o dia de alguns alunos, como um fotógrafo apenas construindo seu portfólio, um jovem com problema com seu pai alcoólatra, um casal planejando sair, etc. Tem diálogos bobos entre adolescentes, é realmente apenas mais um dia, mas nós telespectadores sabemos que a qualquer momento isso vai mudar, isso gera uma ansiedade desconfortável, o fim é premeditado, não tem fuga.

Não existem explicações, não é mostrada a fundo as motivações dos assassinos, não tem uma moral, não tem vilões e mocinhos, não existe tentativa de justificação das ações tomadas pelos personagens, o filme não toma lados, ele apenas expõe, observa. O filme não quer te ensinar nada, por isso é cruel. Ele só quer que você encare, encara o vazio, o absurdo, o frio, ele quer que você sinta o silêncio, a violência que brota onde ninguém olha. É sobre indiferença, alienação, negligência e sobre como, às vezes, o mal não grita, ele só anda pelos corredores.

Elephant é uma obra que te faz observar, sentir, contemplar, não é sobre narrativa, não é sobre enredo. Ele te faz encarar de forma real sem uma música de fundo, gerando um clima, ou uma movimentação de câmera teatral. Em Elephant você está lá, não é só um filme é quase documental, você vê sem floreio, vê no cru, por isso é brutal, desconfortável, incômodo.

É um filme de cinema experimental, então foge dos padrões tradicionais do cinema comercial, o que pode ser novo para alguns, talvez cause até um leve estranhamento. Em 90% dos filmes que vemos há a presença da fórmula tradicional, estrutura em três atos, trilha sonora guiando emoção, cortes rápidos, explicações de enredo, clímax, resoluções.

Elephant rejeita tudo isso.

O filme tem um ritmo lento e contemplativo. Ele se recusa a te entreter, ele não tem pressa nenhuma. Você vê personagens apenas caminhando por longos minutos com o som apenas de seus passos e do ambiente, como o vento, folhas balançando, etc. A ação não está no "o que vai acontecer", mas no "como você se sente enquanto nada acontece". Os planos são realmente longos e contínuos, você segue os personagens andando às vezes sem nenhum corte de cena como se você fosse um fantasma atrás deles, pode ser cansativo caso seu intuito seja se entreter. Entretenimento não é foco do filme. Pode ser maçante para alguns porque repete momentos de diferentes pontos de vista. Você vê os mesmos eventos por outros ângulos, como se estivesse sendo arrastado para dentro do mesmo espaço claustrofóbico.

Em Elephant é mais importante o estado que o filme provoca do que o que ele conta. (Isso é uma marca do cinema experimental). "Você não assiste para saber o que acontece, você assiste pra sentir o que está acontecendo, ou às vezes, para perceber o que não está." Ele não quer te agradar, ele te joga dentro de um ambiente e te deixa lá, sozinho, em silêncio.

Para mim um dos pontos altos e mais cortantes são justamente o silêncio e o cotidiano. Nada é intensificado, não espere sentir picos de emoção. Não tem uma trilha sonora te guiando emocionalmente como em filmes de terror por exemplo, que tem aquela musiquinha de tensão em momentos estratégicos. Isso gera uma estética de vazio, parte central do cinema experimental. A tensão aqui vem a partir do silêncio mesmo, do quão comum é tudo, de como aquele poderia ser apenas um dia comum seu. As conversas são banais, ninguém está fazendo nada de muito importante, estão apenas fazendo suas coisas, é tudo comum demais e isso é proposital, o horror e a tensão não surge como uma explosão e sim como parte do cotidiano.

Uma coisa importante de ressaltar é que o roteiro não é linear, como citado anteriormente, não segue a regra de início-meio-fim. As linhas temporais se embaralham levemente, não formando um quebra-cabeça e sim uma "teia", não tem protagonista fixo nem clímax evidente. O filme exige atenção, não para entender uma trama, mas para sentir a densidade do ambiente. Cada cena conta, cada cena exige ser sentida, até aquelas em que não tem absolutamente nada, especialmente essas cenas na verdade. Se você não der a devida atenção o filme não vai fazer sentido e talvez nem ter "valor", porque você não vai ter sentido. Sentido cada passo, cada movimento, cada diálogo bobo, cada situação banal. A narrativa não serve para entregar uma moral e sim para causar incômodo, é mais sobre atmosfera do que sobre enredo.

Algo particularmente incómodo é o minimalismo sentimental, a "falta de aprofundamento emocional". O Gus Van Sant (diretor do filme) não explica as motivações por trás daquele ato brutal e violento. Apesar de saber os possíveis motivos, você não vê o que levou aqueles jovens a tomar aquela decisão. Os dois rapazes são retratados com a mesma neutralidade que todos os outros alunos, o que é muito incômodo e é para ser incômodo, é completamente proposital. Você os vê como apenas alunos como os outros, mas você sabe que não são, e isso é difícil. Não há julgamentos fáceis, não há discursos, apenas ações, silêncio, espaços vazios. Como já dito, o filme não traz o contraponto de "vilão e mocinho" "lado mal e lado bom", ele não toma partidos, apenas mostra. É desconfortável.

Quanto a interpretação da parte mais técnica…

O formato de imagem (Aspect Ratio) usado é o de 1.33:1, ou seja, a imagem é praticamente quadrada, diferente do comumente usado que são os de 1.85:1 ou 2.39:1, que é mais "retangular" "cinematográfico". O uso de proporção mais quadrada aqui é usado para limitar o campo de visão, faz com que você veja menos ao redor causando uma sensação de claustrofobia e isolamento. É como se aquela escola fosse uma caixa fechada, não tem para onde ir, não tem fuga. Fora isso, evoca uma estética de TV antiga e filmes dos anos 30-50, ou fitas caseiras. Traz um sentimento mais íntimo, como se estivéssemos vendo um diário em vídeo antigo, faz parecer pessoal demais, próximo demais, real, e novamente desconfortável.

O filme foi rodado em película 35mm, que oferece uma qualidade de base mais rica e uma textura mais orgânica, o que contribui para o tom naturalista que o filme tem. Traz essa naturalidade, reforça essa ideia de "vida real", como se aquilo estivesse realmente acontecendo ali na sua frente. Já as lentes usadas foram entre 18mm e 25mm, que são lentes grande-angulares, que traz uma sensação de proximidade, como a câmera fica perto dos personagens, a lente causa uma leve distorção dos cantos (das bordas da imagem). Em muitos dos planos-sequência a câmera segue os personagens pelas costas (como um jogo em terceira pessoa) com o uso de uma grande-angular isso aproxima o espectador fisicamente dos personagens, sem precisar mostrar suas emoções diretamente. O foco permanece neles mesmo quando o mundo ao redor parece vazio ou fora de foco, novamente reforçando a solidão e alienação.

Algo que gostei muito foi a movimentação da câmera, que está quase sempre em steadicam, o que torna o movimento muito mais fluido e leve, é suave e limpo, traz a sensação de que somos um fantasma observando tudo ali. É flutuante, o que se encaixa perfeitamente com o estilo frio e distante do filme. Somos como um espírito vagando junto com os personagens, nossa presença está lá mas nós não estamos (de forma física), isso evoca um sentimento de impotência que intensifica a tensão porque sabemos o que vai acontecer mas não podemos fazer nada, reforçando aquilo que já dito anteriormente: não tem fuga, não tem para onde ir, o fim é premeditado.

Resumindo…Elephant é um filme contemplativo de cinema experimental, cujo foco é em sentir o que aconteceu, observar, realmente contemplar. Não é feito para agradar ou entreter, é feito para te fazer encarar o que aconteceu. Não é um filme que todo mundo vai gostar porque foge do cinema tradicional, muitas pessoas podem não gostar desse estilo, e tudo bem, nem todo filme é feito para você, cada um tem um gosto, cada um é tocado por estilos e especificidades diferentes, mas acho que vale a pena ver pela experiência de tentar algo novo.

Elephant não é um filme sobre o que aconteceu, mas sobre o que ninguém viu, e sobre o que ainda fingem não ver. É um filme que exige coragem, não para entender, mas para não desviar o olhar.

Contemple. Sinta.

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