Solidão
Solidão…
O que falar sobre?
Bom acho que eu tenho propriedade para falar desse assunto…infelizmente.
Toda a minha vida eu sempre fui solitária, a primeira filha em uma família onde não tinham crianças (e as que tinham eram distantes).
Eu era a criança que sempre brincava sozinha, que tinha o hábito de falar sozinha (mais que o comum de uma criança)...e uma criança negada, que sempre sentiu que não deveria ter vindo ao mundo mas veio, e veio diferente de como desejavam…
A solidão já era o meu demônio nessa época…era assustador, a sensação de não ter ninguém..; isso dói para um adulto, quem dirá para uma criança.
Doeu o suficiente para que eu me partisse ao meio, da forma mais brutal possível, sendo duas pessoas em uma só.
Me dividi sendo uma a pessoa verdadeira, e a outra como todos queriam que eu fosse; eu criei alguém para ocupar esse espaço vazio na minha vida; o espaço de um amigo, um pai, uma mãe…
Mª Vitória e Lívia (Liv/Ivi), sendo Liv a pessoa verdadeira…eu criei na minha mente a irmã que eu não tinha, sendo um espelho de quem não aceitavam que eu fosse.
Eu podia ver, ouvir, e conversar também…desde aí me tornei uma criança com uma mente quebrada por causa da solidão.
Creio que esse foi o primeiro momento da minha vida onde a solidão feriu a minha alma.
O segundo seria no fundamental, onde o bullying sempre foi presente para mim; a época em que comecei a crescer, ganhar peso…e comecei a me comparar (e ser comparada).
Por algum motivo eu sempre me senti deslocada, parecia que eu não me encaixava em lugar nenhum, algo em mim era diferente, e isso era ruim.
Por algum motivo as outras pessoas da minha idade sempre pareceram diferentes de mim, talvez porque eu cresci de uma maneira diferente…já cresci quebrada…
Eu era diferente mas não no sentido de ser alguém especial, e sim no sentido de ser estranha.
Eu era excluída, e sempre era a amiga que falavam mal pelas costas, seja na escola ou na igreja; era a aluna que fazia os trabalhos sozinha; a criança que era sombra de um amiga popular, simpática, carismática, extrovertida, bonita, magra…
Fora o fato de que crianças podem ser cruéis…eu ainda me lembro de muitos dos comentários ofensivos dessa época, muitos deles ecoam na minha cabeça até hoje, muitos deles se tornaram meus monstros internos, aquele sussurro desgraçado que está sempre comigo no fundo do limbo da minha mente.
Esses monstros, que hoje são só parte de mim, um dia já me consumiram, tomaram conta de mim e de repente eu quem era o sussurro, era eu quem estava presa dentro da minha mente e não eles…eu não sentia nada além do vazio e da dor…e da solidão.
Morrer parecia uma tentação doce, uma serpente sussurrando ao meu ouvido para acabar logo com tudo.
De repente nenhum corte era profundo o suficiente, o silêncio solitário no meu limbo era alto demais, ensurdecedor e nenhuma dor física conseguia calar-lo mais, nenhum corte me fazia escapar, e nenhum sangue afogava aquele grito no silêncio.
Eu estava sofrendo…e ninguém me ouviu, ninguém me escutou ou acreditou em mim, pelo contrário, todos apontaram o dedo na minha cara e me chamaram de louca, dramática, até mesmo de possuída.
Ninguém me entendeu e validou as minhas dores.
Nesse período longo aquele velho demônio me assombrou de novo, ele voltou com força e quase me levou com ele.
E hoje ele está aqui de novo…muito mais frio, e mais doloroso.
É como uma lâmina fria e afiada encostada na minha pele ameaçando acabar com tudo.
Transtorno alimentar…um antigo sussurro que voltou na forma de um monstro muito mais forte que eu.
A depressão é solitária, e junto a um transtorno alimentar é muito mais.
Ninguém me entende, ninguém vê o que eu estou vendo, ninguém sente esse pavor me tirando o ar.
Podem dizer que não, mas eu vejo em seus olhos, eles gritam dentro de si que eu estou louca, que eu estou perdendo a cabeça e a razão.
Todos parecem irritados, cansados…
E nenhum deles entende.
"Você está brincando com isso", "Você precisa entender", "todos estão te dizendo a mesma coisa…todos estão errados para você?", "como sempre…"
Não…vocês que não entendem, existe algo dentro de mim rasgando as minhas entranhas, comprimindo os meus pulmões, algo de que eu tenho medo…acha mesmo que eu estou brincando?
Isso já me consumiu faz tempo, como um veneno que tomou os meus pensamentos e está me matando.
Brigar ou reclamar comigo não vai resolver, vai me afastar porque foi o ódio que começou tudo isso, é o ódio que move isso; todo o ódio que um dia despejaram em mim me tortura hoje, já existem vozes gritando comigo na minha cabeça, já existem sombras me torturando por dentro, não preciso de mais reclamação e briga, isso só aumenta a minha culpa.
Se não pode expressar a sua preocupação me acolhendo e me ajudando docemente e pacientemente cale-se, não preciso de mais vozes estressadas aos meus ouvidos, já existem muitas aqui dentro.
Dessa vez a solidão é mais desesperadora, porque dessa vez existem pessoas para ouvir mas que não o sabem fazê-lo então tudo que me resta é o silêncio…o meu silêncio barulhento esteve comigo toda a minha vida junto a solidão que o cerca, dói mas eu já me acostumei, eu só preciso voltar ao meu limbo e ficar lá, o escuro que me assustava precisei tornar minha casa, depois de tantos anos não parece tão ruim por isso dói tanto…mas é melhor que mais gritos de pessoas que não entendem o meu pavor
A solidão para mim é um demônio e sempre foi, era o monstro que eu temia que saísse de debaixo da minha cama enquanto eu dormia, o monstro que se escondia no escuro do meu quarto e não me deixava dormir, era os sons impossíveis mas que por algum motivo eu ouvia, era aquele maldito mesmo sonho que eu tinha todas as noites…ele sempre esteve lá…e sempre vai estar aqui.